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CINEMA ARTE TEATRO ATOR JOCA MONTEIRO

Joca Monteiro, o contador de histórias que resgata a cultura e raízes do Amapá

O ator multifacetado também produz livros artesanais e já encenou no teatro e cinema.

Jessica Alves - 03 de Novembro de 2020

As roupas coloridas, o olhar concentrado, os gestos certeiros e a narrativa poética estão entre os elementos da contação de histórias, atividade que transmite eventos em forma de palavras, que muitas vezes inclui a improvisação. E desta arte, Joca Monteiro domina muito bem!. 

Nascido como Josias, foi com o nome artístico Joca que o ator de 39 anos encontrou a sua forma de celebrar e resgatar os contos que fazem parte da cultura amapaense. Morador da Baixada Pará, no bairro Cidade Nova, em Macapá, foi ali que deu os seus primeiros passos na atuação.

Joca se reconhece como contador de histórias, mas também é professor, ator, palhaço, pesquisador, escritor e produtor de livros artesanais. Ou seja, um artista multifacetado que não encontra limites em sua mente criativa.

Ele iniciou no teatro ainda na infância, na escola aos 9 anos com o professor  Edvan Barros de Andrade, que montou uma peça. Seu personagem era um soldado e desde então, floresceu a vontade de continuar atuando. E aos 16 anos, iniciou a vida de ator profissional como ator e palhaço, atuando em peças e eventos. Aos 17 anos, fez a sua primeira viagem internacional, para a Guiana Francesa. 

Joca Monteiro, o contador de histórias que resgata a cultura e raízes do Amapá

Foto: Reprodução/Facebook

“A partir daí, eu comecei a trabalhar com o teatro. Eu considero a minha carreira profissional quando surgiram peças, animação de festa e coisinhas pequenas. Então eu percebi que dava para ganhar algum dinheirinho e ter isso como uma profissão, aquilo que eu tanto gostava”, disse Joca. 

Daí em diante, Joca se tornou um nome conhecido no teatro amapaense, atuando em peças memoráveis, como “O Cordel do Amor Sem Fim”, “João Cheroso e João do Céu Vendendo Cordel” e “Novo Amapá”. 

Joca também teve oportunidades de representar o Amapá em outras cidades no Brasil com alguns espetáculos que participou, sendo sempre bem recebido pelo público. 

Contador reconhecido

Mas em 2014, Joca conheceu o mundo da contação de histórias, quando viu um movimento no Facebook sobre contação de histórias, onde muitos amigos dele, de outras cidades, já participavam. Então despertou o interesse. 

Durante uma viagem a Belém (PA), a convite de uma amiga, Joca passou três dias no Casarão do Boneco, do grupo teatral In Bust, onde aprendeu como ministrar oficinas de contação de histórias. 

“Voltei de lá com a missão de escrever a minha história, de me encontrar como contador e fui atrás das histórias. Me apaixonei pela arte e então fui em todos os municípios do Amapá coletando histórias onde construí toda a minha narrativa”, explica.

Assim, Joca encontrou nas raízes amapaenses a força de suas narrativas, cheias de personalidade, humor e poesia, que enriquecem as histórias culturais sobre o estado e contos da Amazônia.

Joca Monteiro, o contador de histórias que resgata a cultura e raízes do Amapá

Foto: Arquivo pessoal

E com essa arte, Joca levou suas histórias em mais de 16 cidades do Brasil e o reconhecimento por seu trabalho logo chegou. O artista foi um dos primeiros contadores de história do Brasil a se apresentar no Congresso Nacional, representando a Amazônia, em 2016.

Por se apresentar em escolas, Joca também é um grande incentivador da leitura e por isso foi reconhecido em diversas homenagens nas instituições, que incluem eventos e até o Desfile de Sete de Setembro. Além disso, também foi reconhecido nacionalmente em prêmios, como o Baobá, de São Paulo, em 2018.

“Ser reconhecido como contador de histórias é muito gratificante. E com a internet, que é meu principal meio de comunicação, consigo expandir essa contação para outros locais. Todos que consomem e divulgam meu trabalho são muito importantes para a valorização do meu trabalho”, disse Joca.

Fazedor de livros

Não bastando o grande talento na atuação, como ator e contador de histórias, Joca também multiplica a sua arte com a fabricação de livros artesanais. Desde 2018, o artista produz livros de forma artesanal, com material de boa durabilidade e preço acessível. 

A ideia surgiu após Joca escrever e ilustrar os livros, mas não conseguir uma editora para publicá-los. Então, ele decidiu produzir por conta própria.

“Criei uma editora artesanal, chamada de cartoneira, após pesquisas que fiz e não conseguir fechar com uma editora, até porque a porcentagem que se ganha em cima dos livros é muito pequena. Aí fiz sozinho durante muito tempo e consegui até fazer oficinas de fabricação”, destaca. 

Mas com a pandemia, o projeto teve que ser paralisado, pela dificuldade em conseguir material e comercializar os produtos. Mas ele afirma que pretende continuar com esta atividade. 

“Poder tirar os meus livros dos projetos e fabricá-los foi muito bom. Eu não consegui recursos públicos e nem contrato com editoras, mas não me acomodei e foi uma experiência incrível ver meus livros sendo divulgados”, afirma.  

Filme Açaí

Nem só de atuação teatral vive o currículo de Joca Monteiro. O ator expandiu o seu talento para a sétima arte e atualmente pode ser visto no curta-metragem “AÇAÍ”, dirigido por André Cantuária. 

Na trama, Joca interpreta Dionlenon, um homem que como toda amapaense raiz não dispensa o bom açaí em suas refeições. Mas ele passa por diversas aventuras para conseguir levar os preciosos dois litros do alimento para casa e almoçar. 

Joca Monteiro, o contador de histórias que resgata a cultura e raízes do Amapá

Foto: Divulgação/filme AÇAÍ

Essa foi a primeira experiência mais profunda de Joca com o cinema, onde ele deu mais um diferente passo em sua carreira. E ele começou com o pé direito, pois o filme “AÇAÍ” foi premiado no 43° Festival Guarnicê de Cinema 2020, como “Melhor filme eleito por júri popular” e também “Melhor Trilha Sonora Original”. A produção concorreu na categoria Mostra Competitiva Nacional de Curta Metragem.

“Foi meu primeiro contato mais significativo com o audiovisual, de forma mais técnica, onde estudei, fiz oficinas e entendi mais sobre interpretação para cinema. Foi muito legal ter somado com essa experiência”, destaca Joca. 

Baixada Pará 

Joca conta que foi um dos primeiros moradores da Baixada Pará e sua história começa na Avenida Pará, aproximadamente em 1988, com muitos aprendizados, alegrias e tristezas, mas que contribuíram para o seu crescimento humano e artístico. 

Ali, Joca realizou eventos, fez contação de histórias, protestos contra o descaso dos governantes e ministrou oficinas. Até hoje, a Baixada Pará é o seu lar e referência quando o assunto é arte. O artista não desfaz de suas raízes que o ajudam na contação de histórias. 

“Os projetos que fiz e ajudei na Baixada Pará não são apenas de arte, mas de vida. Cresci aqui e nunca teve nenhuma iniciativa cultural e artística para as crianças e comecei a trabalhar nisso. Desde os 17 anos, já fazia atividades artísticas e comunitárias. Penso coletivamente e para eu estar bem, as pessoas ao meu redor precisam estar também e por isso a Baixada é minha referência”, frisa.  

Joca Monteiro tem uma grande história, que o inspira na contação. Sua grande relação com a narrativa e a coleta de eventos o fazem um dos artistas mais criativos e renomados no Amapá, que já levou essa arte para mais de 10 mil crianças Brasil afora. E que continua inspiradíssimo para seguir o seu caminho. 

“Não é apenas uma questão de profissão e ganhar dinheiro. Arte para mim vai além, é sobrevivência e reconhecimento de meu papel no mundo. Nunca foquei de enriquecer, mas sim de ser feliz e me encontrar na minha arte. Arte para mim é vida”, conclui.

 

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